segunda-feira, 31 de março de 2014

Minhotos - 1914/18: Eles estavam lá ...


Minhotos na 1ª Guerra Mundial

Comemora-se este ano o centenário da I Guerra Mundial.
Faz no próximo dia 28 de Julho que as grandes potência europeias se envolveram num conflito que custou mais de 9 milhões de mortos em combate e 22 milhões de incapacitados e feridos graves, para além da fome, miséria e doença causada às populacões civis de ambos os lados do conflito.
De um lado a Alemanha, o Império Austro-Húngaro e a Itália.
Do outro, a França, o Reino Unido e o Império Russo.
Em Portugal, após uma posição inicial de defesa dos territories ultramarinos das intromissões alemãs, o governo da República viria em 1917 a decidir-se pelo envio de tropas portuguesas para o teatro de Guerra europeu, tendo o Corpo Expedicionário Português (CEP) atingido perto de 200 mil mobilizados.
Com destino ao campo de batalha, foi constituída a 4ª Brigada do Corpo Expedicionário Português, a célebre ‘Brigada do Minho’ que, no dia 9 de Abril de 1918, haveria de bater-se de forma heróica pela defesa das suas posições, acabando impiedosamente massacrada com um elevado número de mortos.
A 4ª Brigada de Infantaria que desde 7 de Fevereiro do corrente ano de 1918, guarnecia e tinha a seu cargo a responsabilidade do sector de ‘Fauquissart’, tendo a cooperar com ela taticamente o 6º Grupo de Metralhadoras Pesadas e as 4ª baterias de morteiros médios e morteiros pesados, tinha as suas forças distribuidas no referido sector no dia 8 de Abril da seguinte forma:
- Batalhão de Infantaria 20: com sede do comando em Temple-Bar, ocupava o S.S.I. (Fauquissart I) com 3 companhias na 1ª linha e uma em apoio. Infantaria 20 (originário de Guimarães)
- Batalhão de Infantaria 8: com sede do comando em Hyde-Park, ocupava o S.S.2 (Fauquissart II) com 3 companhias em 1ª linha e uma em apoio. Infantaria 8 (originário de Braga)
- Batalhão de Infantaria 29: com sede do comando em Red-House, constituia o apoio dos batalhões em 1ª linha, tendo as suas companhias distribuidas pelos postos de apoio da 2ª linha.
- Batalhão de Infantaria 3: com sede do comando em ‘Laventie’, constituia a reserva tendo todas as companhias acantonadas nesta posição. Infantaria 3 (originário de Viana de Castelo)
- Morteiros médios e pesados, 4ª B.M.L., grupo de metralhadoras pesadas, achavam-se distribuidos pelas respetivas dos dois sub-sectores.

A 4ª Brigada de Infantaria ligava-se no seu flanco direito com a 6ª Brigada de Infantaria e no flanco esquerdo com uma Brigada Escocesa (119ª Brigada da 4ª Divisão Britânica) que havia dias ocupava o sector de ‘Fleurbaix’, vinda da ofensiva do ‘Somme’ de 21 de Março.
O efetivo da Brigada achava-se extremamente reduzido, pois em princípio de Abril faltavam-lhe, em pessoal e animal para o seu completo efetivo, aproximadamente 51 oficiais, 1.300 praças e 85 solípedes, o que era devido não só às baixas que dia a dia a Brigada vinha sofrendo nas operações com o inimigo, mas ainda ao rigor do clima a que os Portugueses não estavam habituados e aos violentos e árduos trabalhos que sem descanso eram exigidos às tropas da Brigada.
Desde que seguiu da zona da retaguarda para a frente em 21 de Julho de 1917, primeiro para instrução em 1ª linha, por enquadramento sucessivo de companhias e depois de batalhões, sem e com responsabilidade, nos setores ocupados por tropas inglesas desde ‘Fleurbaix’ a ‘Armentiére’ e em ‘Beuvry’, depois nas reparações do setor ‘Neuv-Chapelle’, ocupado pela 2ª Brigada, durante o período intensivo de instrução no mês de Agosto e parte de Setembro de 1917.
Mais tarde na ocupação do setor de ‘Ferme du Bois’ desde o dia 23 de Setembro, em que se rendeu a 1ª Brigada de Infantaria até 30 de Dezembro, porque foi rendido pela 2ª Brigada de Infantaria, vindo, então, constituir a reserva da 2ª Divisão.
Logo em seguida, além da instrução, empregada para o enterramento do cabo e execução de urgentes reparações dos postos da linha das aldeias, do corpo e ocupação efetiva de alguns dos mesmos, que eram batidos com insistência pelo inimigo e finalmente na ocupação do setor de ‘Fauquissart’, desde 7 de Fevereiro, em que rendeu a 6ª Brigada de Infantaria, até ao dia 9 de Abril em que se deu a ofensiva alemã contra a frente Portuguesa.
Durante todo este período de tempo, em que decorreu de 21 de Julho de 1917 a 9 de Abril de 1918, comportaram-se as tropes da Brigada sempre de molde a merecer o elogio e louvor das instâncias superiors, quer Portuguesas quer Inglesas, repelindo com energia todos os ‘raids’ e ataques inimigos e tendo evidenciado sempre um alto espirito ofensivo, sempre que se encontrava em 1ª linha. É uma prova flagrante o enorme dispêndio de munições de metralhadoras e de muitos morteiros, especialmente em permanência no setor de ‘Ferme du Bois’, em que chegou a atingir o extraordinário consumo de 1352 projéteis de morteiros ligeiros no prazo de 24 horas, como deve constar dos mapas estatísticos existentes no C.E.P..
Não obstante a impecável disciplina e boa vontade sempre manifestada pelas tropes das unidades da Brigada no cumprimento dos seus deveres, era bem evidente o cansaço e a fadiga física das tropes, especialmente nos últimos tempos e já, na ocupação do setor de ‘Fauquissart’, resultante do progressivo acréscimo de atividade de operações de bombardeamentos por parte do inimigo, especialmente de bombardeamentos a todo o momento, que demoliam quase por completo as trincheiras, impedindo a continuidade e regularidade das operações e aumentando o já de si duro e extremamente fatigante, trabalho das tropas da Brigada, sendo cada vez maiores as faltas no pessoal em virtude das baixas e dos doentes por fadiga, evacuados para os hospitais e, não sendo as mesmas preenchidas, resultava com o decréscimo dos efetivos num excessive trabalho para os restantes, a acrescentar ao que já lhes competia.”
“Infantaria 20 (originária de Guimarães), a Infantaria 8 (originária de Braga) e a Infantaria 3 (originária de Viana do Castelo) sofreram 60% das baixas, entre mortos, feridos e prisioneiros, dos seus efectivos, justificando a atribuição, após o final da I Guerra Mundial, de medalhas de valor militar e cruzes de guerra quer ás unidades da "Brigada do Minho" quer individualmente.”
[Relatório da 4ª Brigada de Infantaria (do Minho) - Corpo Expedicionário Português – 2ª Divisão]
Uma unidade do Corpo Expedicionário Português em coluna de marcha.
Consequências:
As consequências imediatas da Primeira Guerra Mundial foram evidentemente as baixas humanas. O conflito fez mais de 8 milhões de mortos (1,9 milhões na Alemanha, 1,7 milhões na Rússia, 1,4 milhões na França, 1 milhão na Áustria-Hungria e 760 mil na Inglaterra), 20 milhões de feridos e 6 milhões de inválidos. Traduziu-se igualmente em grandes perdas económicas e em enormes gastos com o esforço de guerra, lançando muitos Estados em sérias crises. A Europa passou por um período de dependência económica e também de instabilidade política, perdendo a sua posição de hegemonia que ocupava no panorama mundial.
Em termos económicos, a Europa ficou completamente desorganizada, com graves problemas no setor agrícola e industrial. Os grandes beneficiários desta situação foram os EUA e o Japão. No caso do Japão, o país pôde beneficiar do afastamento dos tradicionais concorrentes europeus, o que permitiu o estímulo e a diversificação da sua indústria. Os EUA lucraram também, pois viram as suas reservas de ouro duplicar, ficando nas suas mãos cerca de metade do ouro disponível a nível mundial. Este poderio económico vai permitir ao país substituir a pouco e pouco a preponderância financeira dos europeus, em particular na América do Sul. Segundo o tratado de Versalhes (28 de Junho de 1919), a Alemanha era considerada a grande responsável pela guerra, tendo que pagar 22 milhões de marcos/ouro como reparação dos danos às populações civis. Este dinheiro foi repartido na sua maior fatia pela França (52%) e pela Grã-Bretanha (22%).
Mas mais significativa que os reveses económicos foi a reconstrução política da Europa, "plasmada" em vários tratados de paz assinados após a Guerra, reunidos sob o nome de Tratados de Versalhes, cuja ineficácia ficaria provada em menos de duas décadas. As negociações de paz reuniram 32 Estados, entre vencedores e vencidos, orientados sob os princípios idealistas do presidente americano Woodrow Wilson (1913-1921). Daqui resultaram problemas políticos que seriam posteriormente o rastilho para uma guerra ainda mais letal do que a que findava. Os problemas-chave latentes eram o direito de nacionalidade das minorias assimiladas pelos Impérios Austríaco, Russo e Otomano; a repartição dos territórios coloniais, não europeus; a vexação sofrida pela Alemanha (desmilitarizada, perdendo territórios e pagando indemnizações pesadas); e o fracasso da Sociedade das Nações (SDN), incapaz de fazer respeitar os acordos e manter a paz.
O mapa geopolítico da Europa foi então redefinido sobre os escombros da guerra. A Alemanha foi forçada a evacuar a Alsácia-Lorena, pertencente à França, e a margem esquerda do Reno (Renânia). A região do Sarre ficará sob o controlo da SDN, reservando ao território o direito de optar em relação ao país que desejasse integrar (a França ou a Alemanha). A Posnânia (na Polónia) e uma parte da Prússia (território alemão no báltico oriental) são dadas à Polónia, ainda que o acesso ao Báltico fosse assegurado por um "corredor" de 80 km, separando-se a Alemanha da Prússia oriental. O território do Norte de Schleswig foi também anexado à Dinamarca, após plebiscito entre a população (1920).
A Europa central e balcânica foi totalmente reorganizada a partir do desmembramento do Império Austro-Húngaro. A Hungria viu-se, todavia, amputada de parte do seu território pelo tratado de Saint-Germain-en-Laye (10 de setembro de 1919), perdendo ainda outras regiões através do disposto no tratado de Trianon (4 de junho de 1920). Segundo o tratado de Neuilly (novembro de 1919), a Bulgária foi forçada a ceder a Trácia à Grécia e a Macedónia à Sérvia. A Turquia teve também que abandonar as suas possessões árabes e a Terra Santa, o que correspondia a quatro quintos do seu império (tratado de Sèvres, 10 de agosto de 1920). Relativamente à Polónia, o tratado de Versalhes pouco precisou no que diz respeito à sua fronteira oriental com a Rússia. O desmembramento do Império dos Habsburgos (Áustria-Hungria) vai beneficiar a então recente república checoslovaca, a Roménia e a Sérvia, cujo Estado ficava com a posse da Eslovénia, a Croácia (com a Dalmácia).
Aos impérios históricos, formados sob o princípio da legitimidade, sucediam-se os novos países criados sob o princípio da nacionalidade, face à eclosão de diversos movimentos nacionalistas. Húngaros, polacos, checos e eslovacos e povos da ex-Jugoslávia proclamam a sua autonomia logo em 1918 no fim da guerra, enquanto se ouvem também os protestos de albaneses, arménios e gregos orientais (da Turquia). Ao mesmo tempo, os países que perderam com o alinhamento das fronteiras, como a Hungria e a Alemanha, mostravam o seu descontentamento aderindo a ideais como os saídos da terceira Internacional comunista ou mesmo a outros de expressão mais extremista, de direita nacionalista.
A Europa dividiu-se politicamente. A vitória dos Aliados era entendida como a vitória da democracia face aos impérios autocráticos. O garante desta nova ordem seria a SDN, instituída pelo tratado de Versalhes. A Sociedade tinha uma dupla função: por um lado, garantia a paz e a segurança internacional, e por outro devia desenvolver a cooperação entre as nações, encarando o espírito universal do parlamentarismo. Contudo, porque baseada em equívocos, a sua ação irá revelar-se insuficiente para evitar o deflagrar de um novo conflito.

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